* Doublet é um jogo de palavras em que, a partir de uma palavra, trocando-se uma letra por vez, chega-se a outra. Um dos desafios do jogo é que sejam construídos sentidos a partir das alterações graduais. Outro desafio é o alcance do termo-objetivo em poucos passos.

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Acervo pessoal

I

Serenata azul —
os bicos buscam guarida
numa guaritá.

II

Enquanto no ipê
explode a flor do momento:
foge um bem-te-vi.

III

Como um gato eu busco
a fresta de sol que empresta
luz ao lusco-fusco.

IV

Pedras na subida:
é verão na Mantiqueira,
chove verde o sol.

V

Sentar e esperar —
a grande árvore é prova
de que o tempo passa.

VI

Pingentes vermelhos
por toda a extensão da cerca —
os brincos da horta.

VII

Nasce um arco-íris:
a luz passeia e seduz
xícaras e pires.

VIII

Pássaro de vidro
azul como o céu no inverno —
quebra-te o calor?

IX

Levanta-se rumo
à abóbada azul a nave —
a cruz toca o céu.

X

Amoras singelas
no jardim da minha casa —
bem-vinda, Deméter.

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Créditos da imagem: Dameli Zhantas

O dia acabou,
agora que a noite
começa e a hora
já passa.

O dia acabou,
a vida já passa
das seis, porém eu
não vi.

O tempo acabou
e a morte já vem,
cuidado que o trem
tem pressa.

A linha do trem
é fina, mal cabe
a vida de quem
viaja.

A mala está cheia
de inutilidade.
A vida, vazia
de gente.

Os olhos são mares
de sal e de vento,
a areia da praia
não chega.

Das nuvens, eu vi
as formas e a chuva.
Do sol, eu senti
a luz.

Tranquei-me na casa,
cortei minhas asas,
perdi meu direito
de ser.

E o poço, que é fundo,
um rasgo no mundo,
parece que é raso
em mim.

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Créditos da imagem a Михаил Секацкий

Tinha pressa
mas também tinha preguiça
de viver.

Achava que vivia
enquanto sonhava
à noite com o dia.

Morreu dormindo
de overdose
de fantasia.

E como toda morte
foi precoce
tinha a vida toda ainda.

Era jovem demais para morrer
e demasiadamente velho
para mudar.

Morreu dormindo
era meio-dia
e a pálpebra não se abria.

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Photo by Anton Luzhkovsky on Unsplash

Uma vida resumida
em começo, mãe e fim.

Uma vida decidida
por antecipação.
Segredo de mãe
é não ser humana,
ser divina para o choro
não ter o mesmo sal.
Na horta, as alfaces
balançam os braços
e dizem olá e adeus.
Mãe, a bença,
não é Deus quem chama.
É a liberdade
que se ressignifica.
Mãe não é mais sentença.

Uma vida reescrita
com começo, meio e sim.

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Photo by Valeriy Kryukov on Unsplash

Não existe amor à primeira vista,
ao primeiro encontro,
à primeira colisão de aleatoriedades.
Ainda que exista a fagulha, o calor,
a instantaneidade,
amor é outra coisa.
À primeira vista,
o príncipe chicoteia seu cavalo branco.
Quem ama alguém que maltrata um bicho
por vontade?
Ama-se depois,
na independência de fadas madrinhas,
na varrição da casa,
na lavagem da roupa
e na caminhada.
Amor à primeira vista
é viagem da disney & de hollywood.
Ama-se na ausência da moeda e da saúde
e na abundância dessas também.
Ninguém ama à primeira vista.
No máximo, tem interesse.
O amor vem depois,
pouco ou muito, mas depois.

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